sábado, 17 de setembro de 2011

A Menina Que Brincava com Fogo/ A Rainha do Castelo de Ar - Stieg Larsson




Editora: Companhia das Letras
Autor: Stieg Larsson
Ano: 2009
Número de páginas: 608/688


Existe a sociedade. E existem aqueles que a regem. Platão, em seu livro “A República”, expôs a seguinte questão “Quis custodiet, ipsos custodies?”, ou “Quem vigiará os vigilantes”, ou “quem irá nos proteger dos protetores”. Em contrapartida, Montesquieu, em “O Espírito das Leis”, propôs a existência de três poderes, que se vigiariam entre si, impedindo o poder de ficar na mão de um único órgão, e dando uma resposta a questão de Platão. Ainda assim, em nossa sociedade, vemos inúmeros casos de pessoas em posição de poder que violam as leis Constitucionais de um país para atingirem seus objetivos. É quando aqueles que deveriam nos proteger, reger a sociedade de maneira a organizá-la e harmonizá-la, viram as contas pra população e passam por cima de tudo e de todos. E quem haverá de pará-los? Passaram por cima de Lisbeth Salander. De seus direitos, de sua dignidade. Mas ela não é uma pessoa qualquer. Ela é uma menina que brinca com fogo. Tem a mais impressionante das inteligências. E tem pessoas, como Mikael, que sempre estarão dispostas a ajudá-la.

É sempre difícil falar de nossos favoritos. Algumas histórias são capazes de nos tocar de forma tão profunda que apenas palavras jamais seriam capazes de expressar todos os sentimentos que o livro nos gerou. Além de que, alguns livros tratam de temas tão importantes e atuais, discutidos e polemizados a todos instante, que é quase impossível colocar toda a magnitude da obra numa singela resenha.

Terminei de ler com aquele sentimento de quero mais e aquele imenso aperto no peito, por ver chegar ao fim a magnífica obra que Stieg Larsson escreveu e nunca mais terá chance de fazê-lo. "A Menina Que Brincava com Fogo" e sua continuação “A Rainha do Castelo de Ar” são infinitamente mais profundos e intensos, e sua história vai muito além da uma trama de suspense que nos foi  mostrada no primeiro volume da Trilogia Millenium "Os Homens Que Não Amavam as Mulheres".

Trilogia essa que deveria se chamar “Trilogia Salander”. Os livros não são sobre a revista Millenium, ou sobre Mikael, ou sobre qualquer outra coisa e pessoa. É sobre Lisbeth, sua desafiadora e instigante figura e sua vida completamente negligenciada por autoridades capazes de tudo para esconder um segredo.

Após Lisbeth ajudá-lo a solucionar o caso Vanger, Mikael voltou a ativa na revista e tentou diversas vezes contatá-la, sem sucesso. Lisbeth não queria papo com Mikael, e estava curtindo férias bem longe, com identidade falsa, e se aventurando com equações matemáticas. Tudo ocorria normalmente na vida de Mikael, até o dia em que Dag e Mia, um casal de jornalistas que estava escrevendo uma matéria sobre tráfico de mulheres, o procurou.
O misterioso nome Zala aparece em meios as investigações sobre tráfico de mulheres, e pessoas que não deveriam saber da existência desse nome acabam sendo assassinadas. Lisbeth Salander, que tem alguma ligação com o nome Zala, e por uma péssima sorte presenciou o assassinato, é considerada principal suspeita, e consequentemente vê sua imagem em todos os noticiários de TV. E a imagem que pintam dela é de uma prostituta, lésbica, satânica e louca! Quando Mikael vê o nome de Salander na boca de todo mundo, ele decide que irá ajudá-la. Mas quando ela não quer ser encontrada, ela não é!

Quem era Zala? O que ele tem a ver com Salander? Quem cometeu o crime? Quais segredos Lisbeth esconde? Essas são questões desenvolvidas em “A Menina que Brincava com Fogo”. Em “A Rainha do Castelo de Ar”, que começa exatamente onde parou o volume anterior, todas essas questões já estão esclarecidas, e ai cabe a Mikael, Salander e outras pessoas que abraçaram a causa da garota problemática, provar quem está por trás de todas as atrocidades pela qual a vida dela passou, e conseguir, com muita dificuldade, fazer os culpados pagarem por isso.

Lisbeth Salander brincava com fogo. Era alheia a regras hipócritas da sociedade e por isso era vista com maus olhos. Mas ela sempre desafiou a sociedade e sempre enfiou o dedo na cara dos governantes e suas leis que funcionam apenas para os “mais fracos”. Ela era diferente. E essa diferença sempre gerou estranheza e preconceito. Ninguém conseguia enxergar ela como a garota brilhante que era. E por isso todos a julgavam e condenavam. Após entrarmos na vida dela durante a leitura do livro, conseguimos entender porque ela se tornou daquele jeito. Mikael foi uma das poucas pessoas que conseguiu enxergar as qualidades de Salander e gostar dela independente de seu jeito antissocial.

Stieg Larsson, que era jornalista e polêmico, faz em sua magnífica trilogia uma crítica perfeita à sociedade moderna. Expõe em sua história a dificuldade do sistema controlar o próprio sistema e de provar a culpa de pessoas poderosas que passam por cima das leis. Realidade que não apenas na Suécia, país onde se passa a trama, mas na maior parte do mundo pode ser observada.

Desenvolve personagens brilhantes e, diferente da maior parte dos romances policiais, não narra a história com pressa. Larsson é cirúrgico ao escrever, e constrói diálogos e situações que parecem um imenso e delicado quebra cabeça, que muito aos poucos vai sendo montado na cabeça do leitor.

Mikael provavelmente é uma imagem do autor, que assim como Larsson, causava polêmica e colocava em cheque nomes de pessoas importantes, sem se preocupar com as conseqüências. O que importava pra ele era questionar e dizer verdades, ainda que tivesse que pagar por mexer com “pessoas intocáveis”.

Outros personagens, que têm um espaço reduzido na trama, mas que nem por isso são menos importantes, também são fantásticos. Larsson desenvolve a personalidade deles utilizando como parâmetro principalmente o caráter. Existem os morais, e existem os corruptos. Não há personagens “anormais” ou "perfeitos". Todos os tipos de personalidades apresentados no livro podem, facilmente, ser identificados na vida real, o que nos aproxima da história.

Stieg Larsson morreu logo após entregar a trilogia para uma editora. Fica claro, no momento em que o fim do livro é alcançado, que o autor tinha mais planos pra Lisbeth, Mikael e companhia. Isso, aliás, já foi confirmado por pessoas próximas a Larsson. Ele ia escrever mais. Toda vez que penso nisso sinto um aperto no coração. Me despedir da história foi difícil e até hoje sinto saudades.

Como disse, é difícil falar de nossos favoritos. Poderia escrever muito mais sobre a Trilogia Millenium, mas vou ficar por aqui, junto com meu saudosismo, e com um sentimento de gratidão por Stieg Larsson, pois ele criou uma história que vai ficar pra sempre no meu coração.

                                                                                          Marina Risther Razzo

Nota: * * * * * Ótimo (na lista de meus livros favoritos)
Livro lido em Abril/2011


Trilogia Millenium:
Os Homens que não Amavam as Mulheres (resenha)
A Menina Que Brincava Com Fogo
A Rainha do Castelo de Ar

                                                                                   
 

5 comentários:

Pah Montanari disse...

Essa série chama muito a atenção, gosto dos temas políticos e os livros estao na lista dos proximos a serem lidos!

Ficou otima a resenha!!

Ágatha Alves disse...

Eu tenho A rainha do castelo de ar, mas ainda não li, um dai comprei 4 livros, sempre compro e agora parei para ler todos que comprei, ainda vou chegar nesse e comprar o outro.
Beijão

Naniedias disse...

Essa série é maravilhosa! E eu fiquei muito triste quando descobri que deveria ser uma série com 10 livros... uma pena ><
Eu gostei muito do segundo e terceiro livro da série, são ótimos! Mas ainda acho que o primeiro é o melhor =)

Mih. disse...

Tenho loucura para ler esse serie!!
Maas, como ultimamente nao tenho mto tempo, estou tendo que deixar as series de lado..
http://amigaleitora.blogspot.com

kaik disse...

O primeiro livro é sem sombra de duvidas o melhor! Mas os outros dois tb são excelentes.

Postar um comentário