segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Ensaio Sobre a Cegueira - José Saramago

  • Editora: Companhia das Letras
  • Autor: JOSE SARAMAGO 
  • Ano: 1995  
  • Número de páginas: 312

    Sinopse:
    Um motorista parado no sinal se descobre subitamente cego. É o primeiro caso de uma "treva branca" que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos se perceberão reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas.
    O Ensaio Sobre a Cegueira é a fantasia de um autor que nos faz lembrar "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam". José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio, impondo-se à companhia dos maiores visionários modernos, como Franz Kafka e Elias Canetti.Cada leitor viverá uma experiência imaginativa única. Num ponto onde se cruzam literatura e sabedoria, José Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada leitor, diante da pressão dos tempos e do que se perdeu: "uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos".
Confesso que hesitei algumas vezes antes de escrever sobre esse livro. Em primeiro lugar porque José Saramago (Que Deus o tenha!) era um mestre. Em segundo lugar porque "Ensaio Sobre a Cegueira", que está em minha lista mental "Melhores livros que já li...", é profundamente intenso.

Primeiramente gostaria de narrar o primeiro contato que tive com algum livro escrito pelo mestre da literatura portuguesa. Estava eu na Santa Casa em junho deste ano, internada, com pneumonia, toda sofrendo e cheia de dores, quando minha amiga Paula, em uma de suas visitas, me levou um livro. Era "Caim" (que diga-se de passagem fui eu que dei pra ela de amigo secreto), a última obra do "titio" Saramago (que até então era vivinho da silva). Confesso e sinto-me envergonhada que até então eu nunca havia lido nenhum livro dele. E "Caim" foi meu fiel companheiro durante aqueles 3 dias horríveis que passei internada. Normalmente eu o leria em algumas horinhas, mas a pneumonia tinha realmente me pegado de jeito e o cansaço que ela me causava não me deixava ler por muito tempo seguido. E foi realmente amor a primeira lida. O jeito peculiar de Saramago escrever me conquistou. E foi só eu estar prontamente curada pra ir correndo na biblioteca municipal pegar mais livros pra ler.

Bom, agora que já contei (e dramatizei um pouquinho...) quando efetivamente conheci o trabalho magnífico deste homem que morreu pouco tempo depois dessa minha "aventura" hospitalar, vamos ao que interessa: " Ensaio Sobre a Cegueira".

Apenas tente imaginar: todos em sua cidade, pouco a pouco, se tornam CEGOS. Simplesmente cegos. Sem nenhuma explicação.
Agora imagine que todos esses cegos vão, conforme são descobertos, sendo colocados em Quarentena. Sim, eles são isolados do resto da cidade, pois aparentemente a tal cegueira é contagiosa. E agora pense: e se no meio de tantas pessoas desprovidas de visão você fosse a ÚNICA a enxergar? Bom, imagino que todos devem pensar "isso é uma benção, claro, seriamos privilegiados". Talvez sim, talvez não. Pois imagine como é ver o sofrimento de todos eles e o quão responsável você acabaria se sentindo por aquelas pessoas. Ou como é dito no livro "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam".

O cenário que imaginamos ao ler é caótico. Homens se tornam animais. A higiene passa a inexistir. E eu achei genial o fato de ninguém no livro ter nome. Os personagens nos são apresentados como: o médico, a mulher do médico, a rapariga de óculos escuros, o primeiro cego, entre outros. As pessoas perdem a identidade, já não se importam mais com quem são. E tudo isso é narrado de forma fantástica. A peculiar escrita de José Saramago, apenas com vírgulas como pontuações, está presente. Refletimos durante todo o livro, sofremos com os personagens, nos sentimos impotentes como eles, conseguimos visualizar o caos. Definiria este livro com duas palavras: angustiante e brilhante.

Dentre as personagens sem nome existe uma que enxerga, como eu havia dito, e que só foi parar na "Quarentena" para poder acompanhar o marido. E a força desta personagem é admirável. "Ensaio Sobre a Cegueira" é uma crítica moral e social absurda. É de um conteúdo sem dúvidas precioso.

Apenas um probleminha (pessoal...) com relação a esse livro: Saramago morreu UM DIA após eu começar a ler. Coincidência mais sombria essa é que, o mesmo aconteceu anos atrás, quando eu comecei a ler Sidney Sheldon. Acredita que pouco tempo depois o homem morreu? Se isso acontecer mais uma vez eu juro que paro de ler autores vivos ;x (ainda bem que muitos dos que eu leio já estão mortos mesmo).

Deixando de lado a conversinha fúnebre, a verdade é que Saramago pode ter morrido, mas suas obras vão ficar pra sempre. São maravilhosas, inesquecíveis. Me faltam adjetivos pra vangloria-lo. Se você não leu Ensaio Sobre a Cegueira, LEIA. Se você não leu nada de Saramago, LEIA. E me desculpe, mas se você ler e não gostar, eu acho melhor nem saber que tipo de livro você prefere.

Até o próximo livro ;)

3 comentários:

Pah Montanari disse...

Saramago será o eterno compreendedor da natureza humana, sem eufemismos eles retrata muito bem do que nós somos capazes...o livro tem dois pontos muito legais na minha opiniao: primeiro é o extremo que chega a humanidade quando colocados em tais condições, segundo é o romance da rapariga dos óculos escuros com o velho do tapa olho que não poderia ter acontecido se não fosse à cegueira mundial...
O livro todo, entõ, faz-nos pensar quem é mais cego, eles, no sentido literal, que se aproximam mais dos seus instintos naturais e dos seus sentimentos, ou nós, que vemos mas muitas vezes não exergamos nada...

E você, para de matar meus autores!
¬¬

Nádia disse...

Eu ainda não li Saramago (sei que isso é um pecado), mas assisti ao filme e tenho alguma noção com relação à qualidade e à profundidade de seu texto. É incrível o quão profundo e crucial é a questão que saramago levanta, afinal o que é a humanidade?
Mas filosofia à parte, Marinazinha, minha assassina de autores fodas, o que vc tem contra Crespúculo??????????
`.´

Leonardo Mendes disse...

Genial esse livro, assim como a obra cinematográfica de Meirelles.
Não sei se você já viu o vídeo de Saramago e Meirelles na pré-estreia do filme.
É de arrepiar ver o autor tentando conter a emoção e o diretor buscando algo a mais no seu olhar.

Aí o video
http://www.youtube.com/watch?v=Y1hzDzAvJOY

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