segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A Menina e o Trem, por Neusa Malandrim

Mais uma vez com as produções dos nossos queridos membros do Clube do Livro, hoje um texto de Neusa Malandrim. 


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A menina e o trem

A menina interiorana sentiu o coração saltar de alegria quando soube que iria, com seu pai e sua irmã caçula, de trem, para uma cidade vizinha, na casa de parentes.  Um frenesi começou a tomar conta do ambiente. Iria, pela primeira vez, para uma cidade de porte bem maior do que a que morava.

Sua mãe, uma costureira de alfaiataria, sempre arranjava um tempo para costurar vestidos dentro da última moda e tendências destes anos sessenta, para a menina e sua única irmã.
Elas eram muito ligadas pela pouca distancia entre as idades, apenas um intervalo de dois anos.  A mãe quando confeccionava vestidos, era sempre em dupla, um para cada uma das filhas. Via de regra o modelo era o mesmo, diferenciando-se apenas na estamparia ou na cor.

Para esta viagem, em especial, ganharam vestidos estampados de bolas que era a última moda. A menina ficou com o tecido marrom com bolas brancas e a irmã com o amarelo também com bolas brancas.

 Mede, corta, costura, experimenta, ajusta, marca a barra e finalmente o traje da viajem. Era um lindo vestido ajustado na parte de cima, cortado na cintura com saia godê. Tinha vivos brancos na gola careca, nas cavas sem mangas e na barra da saia. Na cintura, um cinto do mesmo tecido do vestido ladeado por vivo branco com uma grande fivela branca redonda.  O da irmã, é claro, era absolutamente do mesmo modelo. A menina estava crescendo e ao se olhar no espelho com aquele vestido levou um susto, viu-se moça.

No dia do embarque, o pai levava uma filha em cada mão. A pequena cidade onde moravam possuía uma estação ferroviária, porém o trem fazia uma parada próxima a casa deles. Ficaram esperando ali, ao lado dos trilhos, por um tempo que insistia em não progredir. Porque será que quanto menos idade temos, mais o tempo demora a passar? E estavam ali, parados. Pai entre filhas. A menina, muito ansiosa, aguardando o início da sua primeira viagem de trem para uma cidade de médio porte.

Finalmente, o trem chegou majestoso, espalhando fumaça por entre eles e foi parando lentamente. Embarcaram e se acomodaram em poltronas confortáveis. O trem seguiu para o seu destino. A menina observava cada detalhe. Tinha a impressão, ao olhar pela janela, de que era a paisagem lá fora que corria e não o trem. O bilheteiro passou, se equilibrando entre as poltronas, com um alicate estranho e muito engraçado. Ele pegava o bilhete da passagem, pessoa por pessoa, e com o alicate estranho e engraçado, fazia vários furos e a devolvia para os passageiros. Passou, também, o vendedor de balas com um tabuleiro pendurado, por uma larga fita, em volta do pescoço. O trem ia devagar e parecia que não chegariam nunca ao destino.

Toda demora gera impaciência e era tal de levanta e senta e puxa o vestido para baixo, preocupada com o modo de sentar que a mãe recomendara: “menina, ao se sentar mantenha os joelhos bem juntinhos e cubra-os com o vestido, pois é assim que se sentam as moças”. Era um dia bastante quente, de primavera, e a menina suava.

Quando finalmente chegaram ao seu destino, a cidade atordoou a menina com tantos carros, tantos sinaleiros, tanta gente apressada na faixa de pedestre, que acabara de conhecer.

A menina notou certos olhares para sua pessoa e pensou que estava bonita e agradava.
Finalmente chegaram à casa da tia Maria que os recepcionou com um almoço maravilhoso e com conversas de gente grande pouco interessantes para a menina.

Na hora da partida a menina foi ao banheiro e se olhou num espelho de corpo inteiro e quase teve um ataque quando viu que seu vestido godê tinha pendido na parte de trás. Aqui cabe um parênteses. O corte godê tende a pender, isto é, criar um bico de um lado.  E o tal bico se formou na parte de trás do vestido e nesta altura já pendia para quase o meio da panturrilha.

A menina, que se acreditava bonita e bem vestida, se achou feira e ridícula e ficou preocupada com a volta. Não tinha como disfarçar aquele bico, parecia a calda de um vestido de noiva encurtada. Toda a alegria da ida se tornou uma tortura na volta. Começando pelo percurso de rua que tinha muitos olhares e ela sabia que estava feia e era pelo ridículo rabo de noiva encurtado.  A viajem pareceu durar o dobro do tempo da ida.  Depois de se acomodar na poltrona do trem, ela não queria mais se levantar, segurou, com determinação de monge, a vontade de ir ao banheiro até não poder mais, mas numa longa viagem, fica quase impossível aguentar muito e quando se dirigiu, pelo corredor, até o banheiro, parecia que todos só tinham olhar para o bendito e ridículo rabo do godê.

Chegou a sua casa, finalmente e, enfurecida, mostrou para a mãe que, analisou e calmamente explicou que este corte tinha esse problema, mas que ela resolveria. Não adiantaria de nada porque a viagem já tinha sido estragada pelo ridículo e maldito rabo do godê.  A mãe da menina arrumou o vestido que ficou pendurado no cabide do guarda roupa da menina até o ano seguinte quando, graças a Deus, não servia mais para a menina em crescimento.

4 comentários:

Lais Ribeiro disse...

Essa reunião com as apresentações de nossas produções foi ótima. É interessante ver como um texto fala muito sobre quem o escreveu. A Neusa está de parabéns, ficou muito bom.

Anônimo disse...

vc esta de parabéns, gostei muito

Anônimo disse...

boa iniciativa do clube .

António Jesus Batalha disse...

Passei e encontrei o seu blog, estive a ver e ler algumas coisas, não li muito, porque espero voltar mais algumas vezes,
mas deu para ver a sua dedicação e sempre a prendemos ao ler blogs como o seu.
Se me der a honra de visitar e ler algumas coisas no Peregrino e servo ficarei radiante,e se desejar fazer parte de meus amigos virtuais, esteja à vontade, irei retribuir.
Mas por favor não se sinta coagido, siga apenas se desejar. deixo a benção de Deus.
António.
http://peregrinoeservoantoniobatalha.blogspot.pt/

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